Nota introdutória
Há uma primeira vez para tudo, se costuma dizer e este é o caso, ao apresentar notas para uma eventual recensão crítica do livro de José Manuel Figueiredo Santos , intitulado Turismo Agridoce, vivências de visão e divisão, contando com um total de dez capítulos, estendidos por 336 páginas, publicado pela editora Colibri, em Lisboa, com a data de Setembro de 2007.
Tanto mais difícil se torna esta tarefa, tendo a consciência da ausência de reflexão e maturação de uma densidade de conceitos, reflexão, visão sobre as diferentes vivências e tipologias de turismo, sob um discurso romanceado ora racional e assertivo, ora interrogativo e argumentativo, ora rebelde e inconformista, ora argumentativo e um meio para transportar as versões oficiais e arquitecturantes do discurso turístico.
Será demolidora e impúbere pelo atrevimento da ignorância na matéria, uma avaliação crítica da obra sem a experiência do autor exposta sob os diversos cenários de uma vivência singular, mesmo que ficcionada para projectar uma mensagem, única na sua escatologia última da efemeridade de emoções, sentimentos, relações, sensações, racionalizações e todo um mundo vivido de enquadramento consciente ou inconsciente, que se procure descortinar na transferência do autor para o leitor.
Entre Portugal e o Brasil, a viagem exterior e interior decorre entre dois países no lado inverso e reverso do espelho, a todos os títulos, sob escalas de um anão e um gigante, em proporção desmesurada e unida pela incidência de uma perspicácia única, avaliadora e potencial “medidora” das mundividências, vividas ou sonhadas, expectáveis e as impostas pelas projecções dos operadores turísticos: pese o papel inicial de um informal acolhedor de turistas, rebeldes face ao concebido circuito para uma mostra do que melhor queremos mostrar, é objecto de revelação rebelde, por oposição e em antítese dessa recusa não aceite, forçada e formal, face ao realismo de um país evidenciado no seu ritmo diário e experiencial.
O turista romântico tece a sua fuga ao padrão de pacotes e decotes dos destinos côr-de-rosa, recusa obscuros circuitos massificantes ou normalizantes de uma pista sobejamente marcada pelos rodados, calçados em torno da mesmice indolente diante do mundo evidente, inquestionável, funcionando na roda da perfeição estupidificante e procura a autenticidade da criatividade ilimitada dos humanos no seio da sua afirmação perante a imprevisibilidade, as relações, as manifestações da natureza e da vida e se revê no próprio pensamento, entre a tese e a antítese, perfilha uma escatologia final de seres humanos desencontrados e encontrados, em espiral da sua procura interior, finda a viagem exterior.
Teleologia do humano turista
Haverá alguma tangibilidade na experiência turística de um ser humano, à vez em viagem na mais perfeita solidão ou em perfeita partilha das experiências vividas com os outros, para lá dos artefactos, luz, cores, movimentos, expressões, vivências e relações permeáveis da experiência humana?
O fim último de uma experiência turística é revelado pelo autor como transporte de uma bagagem de desafio entre o espaço e o tempo, tantas vezes submerso pela fugacidade ou pela voracidade de uma vida única para viver, na irresistível atractividade de um mundo, recusante de pactos de costumização e fidelização, assente na aceitação do efémero como condição última de vida em trânsito.
O encontro singular e quiçá único com pessoas que se deixam escrutinar, partilhar e serem queridas pela sua sabedoria feita verdadeiro roteiro cultural, transfer o sabor de uma memória do passado para a revisitação no futuro, sob a sensação do descontentamento entre o transportado de expectativas e a sensação de vacuidade teleológica dos humanos sob a fragilidade e um mundo desconcertante, atractivo e efémero.
Ninguém volta como foi, nem veio como se nada tivesse ocorrido nessa viagem de desassossego, questionante e formulante de processos únicos de evolutiva consciência, construção permanente de uma síntese de si mesmo e dos outros.
A linha narrativa
As coisas importantes da vida são memoráveis, teias intrincadas de recordações desde a infância na casa dos tios no Algarve até uma tia Anica saudosa de muitos momentos transidos de força e coragem para enfrentar o ritmo da rega da horta e da cuida dos animais, sem apelo nem agravo para os seus proprietários, atrofiadora de inúmeras hipotéticas viagens, potencialmente geradoras de fantasias e excitações céleres de um tio presente na memória, qual eterno viajante no tempo e no espaço, apenso ao realismo do ciclo solar para o duro quotidiano e do ciclo lunar para a maternidade e o descanso religioso.
A procura e o encontro das raízes, identificáveis e ainda presentes, plenas experiências ainda vivíveis numa qualquer soleira da porta no Algarve de um familiar que é recepcionista informal de braços abertos e sem reclamações pelo inadvertido convívio, ou na penumbra de uma ascendência portuguesa incerta e infindável na profundidade de uma afeição emotiva transposta por um qualquer significativo Brisola da vida, traz à liça de uma linha narrativa em busca da autenticidade, escondida atrás de um sinistro génio da tragédia ou de um comediante, o mesmo actor turista seguindo as pistas do desconcerto de um mundo incerto e por se revelar e do descobrir das altercações de estado de espírito, aqui racionalizante de argumentos fortes sobre os desmandos e manipulações inquestionáveis sobre os conteúdos de oferta turística, ali sob o corte abrupto de uma viagem feita para viver, ao interior da existência, numa tensão constante e evolutiva, preparatória de novas viagens, entre o exterior, a inquietação e a escrita do seu próprio livro do desassossego.
As personagens
Manifestações de diferentes recursividades discursivas são pretexto para uma diversidade de personagens, postadas perante os desafios de diferentes experiências em ciclo turístico, além do autor, na sua proximidade familiar ou do estreito círculo de amigos sob diversas origens, mais os furtuitos agentes de mudança de cenário turístico ou fazendo parte de um mobiliário que transforma a percepção individual e de pessoal empenho na relação exógena, daqueles lugares como inesquecíveis, cujas características são mutáveis uma vez riscada a sua presença dali.
À defesa da racionalidade narrativa pela descoberta do âmago e essência da autenticidade num qualquer destino turístico, aconselhado ou seleccionado por si, o discurso de ligação à terra e de “defesa do diabo” é assumido pela parceira íntima Rita, descascador das capas do humano racionalista e a recusa de se descalçar das raízes, quiçá a mais conivente com a fuga ao padronizado e ao cansaço de uma vida em ritmo desgastante, anestesiador de uma qualquer impertinência acima das necessidades básicas, porém arreigada na contestação pelo conformismo e impulsionadora da mudança, de vida e de síntese discursiva.
Viver a vida pela vida e toda a frescura dos verdes anos é representada pela jovem filha do casal, Carolina, expoente do hedonismo exponencial e espiral insaciável de experiências, elevar à máxima potência a vida porque se é vivo; amparada pela conivência afectiva do autor, públicos alvo de representações turísticas de alto teor imagético, porquanto contraditória do discurso sistemático e sistematizante das hipóteses, das causas e dos efeitos, em permanente curto-circuito dos discursos, de uma forma inconformista, avassaladora, destronando dogmas de pensamento pela precaridade e urgência de viver em poucos segundos o que outros percorreram em sinuosos trajectos; porém, submersa às quimeras de um destino em busca de intempestivas emoções num qualquer baile carnavalesco identificativo do ambiente pitoresco da cidade maravilhosa, traja a capa da aparente futilidade e o non-sense, exteriorizando uma aparência identificadora de si pela percepção mercantilizada e marketizada, entrecortada aqui e ali pela perfeição interveniente da sensibilidade, uma reflectida da sua progenitora(?), em conluios constantes de sentimentos e peregrinações da existência, circunstante.
Muitos outros figurantes dão côr e som a perfilhações diversas de discursos ora correntes sobre as descobertas possíveis de uma imensa metrópole inimaginável como é S.Paulo, pequenos tesouros e pérolas reveladas por uma guia Fabíola, afável, sensitiva e pólo atractor de afinidades informais; presenças amistosas e coloquiais, na sua grande maioria, questionantes do propagado progresso, pela condenação dos males do pretenso desenvolvimento turístico, dos problemas atraídos e da problemática da dessocialização pela boca de um Jobim ou de um Brisola, da sistematização e confrontação pragmática com os cánones adquiridos de um Zé Paulo e uma Leila, de um Joel e um Joana.
Inamistosos, o grupo de promotores das lutas de galos discursa pela prevaricação da autenticidade de uma cultura popular e identitária daqueles locais, irmanados no esquecimento e no infortúnio da interioridade, à vez pessoas antes das eleições e após o voto na caixa trasferidos para a frieza dos algarismos e estatísticas, se aglutinam contra o mitigado discurso oficial repugnatório de tais práticas tidas por anti-culturais, agitados contra legislações personificadas nos forasteiros e rasgadores dos papéis que enformam as lides, as marcas de visão e de vida, do seu feérico lúdico e o simples viver de gentes autênticas: a recusa desta experiência limite do humano pela rarefação do ar respirável e ameaçador, pelo sentimento de ameaça à segurança pessoal, transporta consigo a carga da recusa pela dureza e rudeza da afirmação sustentável de uma cultura e apetência pelo potencial de uma preferência pelo celofane embelezador da expectativa encadernada do turista.
A escatologia da inocência perdida
A sensação do déjá vu de experiências e memórias passadas, cemitério de romances e mítica fénix renascida do turista retornado à origem, para dar lugar a uma liberdade de consciência e vivência entre focos de lucidez, num misto de justaposição de uma familiaridade aproximadora e de uma estranheza centrípeta no contacto com os outros, deambulando entre o conhecido e o estranho, porventura permitirá ao turismo encerrar a perene interrogação da humanidade e do mundo, espaço, tempo e estética, à medida de si mesma.
Na sequela pessoana de sobrevivência da cultura para além da humanidade, marco assinalável do seu património e sinal da sua extrovertividade, as tipologias de turismo são resgatadas, atravessadas pelo microscópio analítico e esmiuçadas pelo autor de forma acutilante e com densidade discursiva, entre prós e contras sistemáticos e pragmáticos das maquinações dos industriais do sector e daqueles que procuram a imediatez de soluções económicistas, retirando qualquer laivo de inocência na envolvência do incauto turista, seja entre as visitas em trânsito ao Algarve em busca do usual ambiente de sol e praia, as correntes massas humanas de visita ao Corcovado e Maracanã, nos roteiros turísticos carnavalescos, seja em destinos de elite na praias e ilhas cariocas, no turismo rural do estado mineiro em Juíz de Fora ou na aldeia de Itiapioca: inocência perdida pela percepção de mais atracção pelo efémero e a permanente pesquisa dos traços marcantes de sua identidade revelada pelos contactos com outros mundos ou na sua voraz predação por um qualquer artefacto original.
No limiar dos seus próprios limites do humano turista e do percurso que lhe carrega o acelerador para circunscrever uma actividade de peso global, o turismo aponta para a apreensão de factores ainda por enunciar, o não dito que é pressentido e procurado, a percepção de que algo está para lá da nossa compreensão e do nosso entendimento, pronto para ser revelado, sendo que o maior desafio é a corrida mais rápida que a própria velocidade por forma a se ultrapassar e alcançar um negociação urgente de tempo contra a sua voragem, qual revelação última de uma viagem helicopteriana sobre a linha da vida, diante de um espelho desbocado e sem reservas, captando verdades sobre a desarrumação da sua essência e o ser, o humano que lhe dá suporte e busca a autenticidade.
Esta é a nossa síntese para uma recensão do livro Turismo Agridoce - vivências de visão e divisão de Figueiredo Santos, sob uma perspectiva crítica da analítica agridoce do turismo e da expressão romanceada do autor nas vivências de visão e divisão.
Trabalho para a disciplina de Princípios de Turismo I, UALG-ESGHT, publicado neste sítio a 2 de Novembro de 2009, pelas 16:30.
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