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O meu coração é árabe nos caminhos do Gharb Al Andaluz
Imagens, palavras, viagens, horizontes, cores e cheiros de terra, caminhos, sol e mar, terra e sal, experiências e emoções de vivências únicas para os viajantes nos tempos desta envolvente natural, onde a terra acaba e o mar começa...
Uma história cheia de estórias de viagens e de fantasias, de dureza e sobrevivência, de sonhos e imaginação, de pesca, fogo e mar, de serra, barrocal e plantas, de pessoas e de relação com o mundo com o seu caleidoscópio no olhar e no coração.
Pontes de idos guerreiros adoradoradores do deus Marte, de passagens entre margens de tempos e memórias feitas de lembranças na vida de povos estabelecidos nas margens do Arade; se cruzam nos emaranhados das rugas de idosos e no sorriso de meninos, fazendo renascer a esperança de vidas e visões de futuro, desde os antanhos de xistos, quartzitos, grauvaques, gres, ocres, areias fossilizadas, do vento esculpindo movimentos ondulantes na rocha.
Imaginação e sensibilidade fora dos limites dos desertos, os verdes da paisagem imaginada dão lugar à côr, luz ao desejo da frescura e brilho a uma civilização, que primou pelo aproveitamento dos recursos naturais, dos encantos da mente e da mundividência única do luar e da noite, do sol e da sombra, da terra e dos seus jardins...
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Transeuntes
por terras ocientais do sul da Lusitânia, pelos caminhos do Gharb Al
Andaluz durante séculos de alicimento, traições e sensibiidade humana,
entre jardins frescos e laranjais cultivados nos encantamentos das
ciências da Xelb e nas palavras de poesia única.
Saúda por mim Abu Bkr
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha
Saúda o Palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu
AL-MU'TAMID, séc XI
-- * --
Este poema é para ti,
como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousou o orvalho da noite
Até que o ataviou de flores.
Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro
Com o teu louvor derramei o melhor almiscar(...)
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando os seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
IBN'AMMAR, séc. XI
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Outros
do norte mais fortes se levantaram, trazendo a longínqua cruzada para
mais bem perto do coração da Europa sujeita ao protectorado do Cristo;
quanto sob Sancho I se subjugou, permitiu aceitação suave na transição,
das resistências à mudança e aos tempos novos, esbranquiçada pela paz cristã, desmaia agora a pedra ígnea de fogo em côr de terra e experiência de sangue das gentes.
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O engrandecimento pelas artes sobreviveu ao fogo na paz do território de Portugal, nascido em dia e ano para unir os povos, do sagrado pormontório
almejando novas lutas e terras em demanda, sob ordens de senhores deste e d'além mundo, jazendo marcadas as novas conquistas por pedras pádreas, pátrias do sagrado sob mando do terreno.
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Novas
de hoje sobre olhares de fogo, silêncios de vida e de obra poética,
visões errantes neste pedaço de terra em estratos sobre o mar, muitas vidas de viajantes ficam por contar, sem que desmereçam os favores humanos da narrativa de heróis desconhecidos, edificadores do passado longinquo e recente, eis aqui e ali sentidos de outros mundos, nestas andanças de miragens de peregrinos:
A (in)coerência do fogo
Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto
[...]
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
[...]
Escolho a clareira do corpo silencioso.
É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.
António Ramos Rosa
in As marcas do deserto(1980)
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